O subestimado órgão onde a fecundação acontece (e por que ele pode falhar mesmo sem qualquer exame detectar)
30/07/2026
(Foto: Reprodução) tuba uterina
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Poucas causas de infertilidade feminina são tão comuns e tão mal compreendidas quanto os problemas na trompa. O órgão costuma ser reduzido a um cano —um tubo de passagem entre o ovário e o útero cuja única exigência seria não estar entupido.
A trompa, no entanto, faz muito mais do que deixar passar, explica Paulo Galo, especialista em reprodução humana e professor de ginecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
É ali, e não no útero, que o óvulo é fecundado e que o embrião passa seus primeiros dias; e um órgão que trabalha assim pode estar completamente aberto e, ainda assim, ter deixado de funcionar —uma falha que nenhum exame de rotina revela.
A infertilidade atinge ao menos um em cada dez casais em idade fértil, e é a mulher quem enfrenta a investigação mais longa —ovulação, útero, trompas. Entender o que falha na trompa exige, antes, entender o quanto ela faz.
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O que a trompa realmente faz
Logo após a relação sexual, os espermatozoides sobem pela cavidade uterina rumo às trompas. Quando a mulher ovula, é a trompa que capta o óvulo liberado pelo ovário —e é na transição entre o terço médio e o terço final do órgão que os dois se encontram.
Ali, um único espermatozoide atravessa a barreira do óvulo: é a fecundação, o ponto de partida da divisão celular que dá origem ao embrião.
O embrião recém-formado ainda leva cerca de cinco dias para chegar ao útero, e faz o caminho de volta impulsionado pelos cílios que revestem o interior da trompa, já que nem o óvulo nem o embrião se movem sozinhos.
É essa engenharia que um laboratório de reprodução assistida tenta reproduzir: a incubadora imita a temperatura da trompa, e o meio de cultivo, o seu pH e a sua composição química. Na fertilização in vitro (FIV), o embrião é transferido direto para o útero justamente porque, ao fim desses cinco dias, é lá que ele já deveria estar.
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Aberta não quer dizer saudável
Quando a trompa está totalmente bloqueada, a infertilidade se explica sozinha: o espermatozoide que sobe não encontra o óvulo que desce. Só que a obstrução completa não é o único problema.
A principal origem do fator tubário são processos inflamatórios —muitos deflagrados por clamídia e gonococo—, e a inflamação nem sempre fecha o canal. Às vezes, apenas o danifica.
Uma trompa lesionada pode permanecer aberta e, ainda assim, ter perdido os cílios e as condições necessárias para transportar e nutrir o embrião.
“Não basta que a trompa esteja aberta. Ela precisa ser funcionalmente adequada, porque são os cílios que ajudam a conduzir o embrião até o útero”, explica Edson Borges, especialista em reprodução humana e diretor científico do FertGroup Medicina Reprodutiva.
Há um segundo risco nesse meio-termo: como o espermatozoide é muito menor que o embrião, ele pode atravessar o trecho comprometido e fecundar o óvulo.
O embrião, porém, pode não conseguir seguir adiante e acabar preso na trompa, onde se implanta. É a gravidez ectópica, uma gestação inviável desde o início.
O exame diz se está aberta, não se funciona
Não há aparelho capaz de medir o desempenho da trompa. Os exames existentes —a histerossalpingografia, o mais conhecido, feito com contraste e raios X, e a histerossonografia, com ultrassom e soro— respondem se o canal está aberto ou fechado, e param aí.
Segundo Borges, a aparência da trompa nesses exames pode levantar suspeitas de alguma alteração, especialmente quando ela parece fixa ou deslocada. Ainda assim, as imagens não conseguem mostrar se os cílios estão funcionando nem se o ambiente interno conserva as condições necessárias para o transporte do embrião.
Quando o laudo sugere que o relevo interno da mucosa está mais liso do que deveria, portanto, trata-se de uma suspeita, não de um diagnóstico.
Essa zona cega tem consequência. Cerca de 10% dos casais que não engravidam têm todos os exames normais e recebem o rótulo de infertilidade sem causa aparente —e parte desses casos pode esconder exatamente uma trompa que está aberta, mas deixou de funcionar.
Quando a obstrução de fato aparece, é frequente: no estudo conduzido na Universidade de Medicina de Viena, publicado em 2024 no periódico Journal of Clinical Medicine com 373 mulheres em investigação, um quarto tinha ao menos uma trompa obstruída, quase sempre na porção mais próxima do útero, embora o bloqueio dos dois lados surgisse em menos de 10%.
Entre os fatores que mais elevaram o risco estavam o acúmulo de líquido na trompa, a hidrossalpinge, e os miomas uterinos.
Por que operar quase nunca resolve
A cirurgia parece a correção natural de uma trompa doente, mas costuma frustrar. Já na largada, o diagnóstico de aderências por imagem é impreciso: em metade das videolaparoscopias feitas sob essa suspeita, relata Galo, as trompas não estão de fato aderidas.
E a trompa operada tende a cicatrizar com aderências ainda maiores, o que pode piorar o quadro e aumentar o risco de gravidez ectópica.
Uma distinção separa os desfechos. A reversão de laqueadura —a recanalização tubária— costuma dar certo porque parte de uma trompa saudável, apenas interrompida de propósito: retira-se o trecho amarrado e religam-se as duas pontas boas.
“Já a trompa arruinada por inflamação não tem conserto pontual, porque a lesão se espalha por toda a extensão em vez de se concentrar em um ponto. Mesmo quando indicada, a operação exige microcirurgia ou videolaparoscopia de alta resolução e um cirurgião muito treinado —e ainda assim as chances de sucesso são mínimas.”
A FIV contorna a trompa, mas o relógio corre
Para o órgão que não pode ser recuperado, a medicina reproduz em laboratório o que ele faria. A FIV contorna a trompa: óvulos e espermatozoides vão para o laboratório, o embrião se desenvolve na incubadora pelos mesmos cinco dias e depois é transferido ao útero.
O resultado, porém, não é garantido e depende sobretudo da idade da mulher. Até os 30 anos, cada embrião transferido oferece até 60% de chance de gravidez; aos 35, cerca de 40%; aos 40, perto de 20%.
"Em qualquer tratamento de infertilidade, a idade da mulher é a variável que mais pesa. Quanto mais cedo o casal busca ajuda, maiores as chances", afirma Galo.
"É por isso que a trompa não deveria ser subestimada. Ela pode falhar em silêncio —sem entupir, sem aparecer em exame— enquanto a janela de fertilidade se estreita a cada ano", diz.