Livro selecionado para inaugurar biblioteca de Dua Lipa foi censurado em escola de Salvador

  • 15/08/2026
(Foto: Reprodução)
Livro selecionado para inaugurar biblioteca de Dua Lipa foi censurado em escola na BA "Olhos d'Água", um dos livros brasileiros escolhidos para inaugurar a biblioteca da cantora pop Dua Lipa, em Portugal, foi censurado em um colégio particular de Salvador. O empreendimento da artista, batizado de "Manifesto Library" (Biblioteca Manifesto, em tradução literal), traz obras que abordam temas como poder, controle, voz e memória, e foram censuradas ao redor do mundo. A obra da escritora mineira Conceição Evaristo passou por isso no Colégio Vitória Régia, no bairro do Cabula. Em 2021, a professora Daniela Torres, que dava aulas de história na unidade de ensino, decidiu trabalhar o livro com alunos. Mas a proposta não foi bem recebida por um grupo de pais. A ideia de usar o livro em sala havia surgido a partir de um concurso de uma empresa chamada "Árvore de Livros", conforme explica a educadora em entrevista ao g1. "Nesse concurso havia a sugestão do livro 'Olhos d'Água' para o Ensino Médio. Então, eu trouxe para a sala de aula essa dinâmica com a proposta de trabalhar o livro e produzir 'Cards Manifestos', que seria uma forma de integrar com o Instagram", disse. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia Livro Olhos d'Água, de Conceição Evaristo, na Manifesto Library Reprodução/Jessica Batan A professora relembra que, ao iniciarem a leitura e o debate em sala de aula, os estudantes alegaram que o livro era "mal escrito" e "pornográfico". Além disso, teriam lido trechos que retratavam violência sexual e reclamaram que os contos eram muito tristes. Eles [estudantes] disseram: 'a senhora me obrigou a sentir uma dor que não era minha, que eu não queria sentir'. A professora, então, explicou para eles: "olha, se você lê um conto que é uma literatura e ele causou em você um desconforto durante uma hora ou duas, imagina o desconforto que ele causa nas pessoas negras que vivem essa realidade toda todos os dias?". No entanto, os pais dos alunos também reagiram negativamente e exigiram que a professora se retratasse publicamente por ter obrigado os filhos a lerem a obra. Alguns responsáveis pelos estudantes também se incomodaram com a presença da palavra "atabaque" — instrumento musical usado em religiões de matriz africana — logo no início do livro, o que fez com que alguns alunos nem passassem do primeiro capítulo. Em seguida, os pais pressionaram a escola e solicitaram o afastamento da professora. "A direção realizou uma reunião online determinando que os professores parassem o projeto, não tocassem mais no nome do livro e direcionassem os alunos que questionaram a obra para outra atividade", relembrou Daniela. A professora acredita que o livro incomodou por trazer a dor do cotidiano do povo negro através da voz de uma professora negra em processo de letramento racial. Para ela, os pais não queriam essa dor exposta na escola. Persona non grata Professora Daniela Torres Arquivo Pessoal Na época do ocorrido, Daniela achou que teria o apoio da instituição, porém, não foi bem assim que aconteceu. Primeiro, a escola a afastou de uma turma. Depois, queria que ela se demitisse. "A escola me pressionou para pedir demissão, mas eu tinha 18 anos de Casa, então o sindicato me orientou a não pedir para sair. Nós passamos um ano negociando uma demissão assistida". Mas não parou por aí. Isso porque, segundo a professora, ela começou a ser evitada por colegas de profissão nos corredores da escola. "Acho que esse foi o pior ano da minha vida, porque de toda a equipe do Ensino Médio, da primeira à terceira série, estou falando de todos os funcionários da limpeza, do corredor e de todo o corpo pedagógico... apenas três profissionais na escola falavam comigo", lembrou, emocionada. "As pessoas me tratavam como se eu tivesse sido excomungada na Idade Média, sabe?! As pessoas não me davam bom dia, se os professores tivessem conversado na sala dos professores, e eu entrasse, todos saíam e eu ficava sozinha". No começo, Daniela pensou que isso era coisa da cabeça dela, mas, em um certo dia, um aluno a questionou porque os professores não conversavam mais com ela. Foi nesse momento que a educadora percebeu que a situação estava visível para outras pessoas. A partir daí, ela evitava ficar nos espaços de convivência da escola. Se chegasse antes do horário, ficava no estacionamento, dentro do carro. Na hora da aula, ia para a classe e, quando dava a hora do intervalo, ela voltava para o veículo. A rotina dela seguiu assim até o dia em que foi desligada da instituição. Por meio de nota, o Colégio Vitória-Régia informou que, por envolver menores de idade, não se pronunciará publicamente sobre o caso, que foi arquivado pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), assim como a ação movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), também arquivada. A instituição disse ainda que a dispensa da professora não teve qualquer relação com os fatos descritos por ela e que a profissional não foi desligada à época dos fatos, tendo permanecido na escola por mais dois anos, com o término do contrato ocorrido em 23 de janeiro de 2023. Problemas financeiros e saúde mental Professora Daniela Torres Arquivo Pessoal Após o desligamento da escola onde trabalhou por 18 anos, Daniela enfrentou problemas financeiros. Isso porque, outra instituição onde lecionava há 11 anos, também a demitiu sob a justificativa de que ela não se adequava ao novo projeto político-pedagógico. Sendo mãe solo de uma filha autista com nível 3 de suporte, ela disse que entrou em desespero ao se ver, aos 40 anos, dependente financeiramente de seus pais idosos para pagar despesas básicas como condomínio e alimentação. "Então, voltar para a sala de aula, teve um significado muito maior do que conseguir um novo emprego e me recolocar no mercado. Durante muito tempo, eu me perguntei se ainda existia espaço para mim na educação". Atualmente, ela leciona em apenas uma escola particular, que a contratou durante o período da pandemia da Covid-19, e trabalha como coordenadora geral do projeto "Conectar Educação", uma parceria entre a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre) e a Secretaria da Educação (SEC), executada pela Fundação Luís Eduardo Magalhães (FLEM). Hoje, quem vê Daniela com um sorriso no rosto não imagina como o episódio de 2021 afetou sua saúde mental. Apesar disso, ela afirma que em nenhum momento pensou em desistir da profissão, no entanto, sentia como se a profissão tivesse desistido dela. "Eu achava que não conseguiria mais trabalhar como professora, que eu não conseguiria mais voltar para a sala de aula. Isso me deixava muito desesperada". Daniela Torres transformou sua vivência em pesquisa e literatura Arquivo Pessoal A experiência a empurrou para um "limbo tão baixo" que gerou uma necessidade constante de autovalidação. Isso resultou em uma cobrança cada vez maior de si mesma. Como forma de sobrevivência e ressignificação da dor, Daniela transformou sua vivência em pesquisa e literatura através da autobiografia "A Negra Parda Que Me Tornei". Além disso, ela lançou duas obras voltadas para o letramento racial na infância: "A Cor Que Não Saía" e "A Cor Que Não Sabia Onde Brilhar". Ao ser questionada se trabalharia com o livro "Olhos d'Água" novamente, Daniela afirmou que sim, mas com a consciência de que dependeria apenas de sua coragem individual. "Eu faria de novo, mas eu faria sem esperar apoio, porque acho que quando eu fiz, eu acreditava que conseguiria enfrentar sozinha uma crise racial na escola". Biblioteca de livros proibidos ou censurados Manifesto Library, em Portugal Divulgação A Manifesto Library (Biblioteca Manifesto, em tradução literal) fica localizada na Livraria Lello, em Porto, e é composta por livros proibidos, censurados ou contestados publicamente. Para Dua Lipa, o espaço é um santuário dedicado aos livros que desapareceram, aos autores cuja coragem desmascara as estruturas de poder e controle, e aos leitores que se recusam a aceitar que lhes digam que livros podem ou não ler. "Por vezes, a coisa mais subversiva que se pode fazer é ler um livro e, depois, falar sobre ele", afirmou a artista em um comunicado. O acervo reúne 100 títulos que, segundo a cantora, são essenciais para compreender o mundo contemporâneo. Entre eles estão O Conto da Aia, de Margaret Atwood; O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir; 1984, de George Orwell; e o também brasileiro O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório. Conceição Evaristo na Manifesto Library, em Portugal Reprodução/Jessica Batan Ao todo, a biblioteca conta com 5 mil exemplares organizados em torno de quatro temas: poder, controle, voz e memória. Confira: Poder Estas obras confrontam diretamente as estruturas de poder dominantes — regimes políticos, sistemas sociais ou normas culturais —, gerando frequentemente controvérsia ou resistência institucional. Não se limitam a descrever o mundo; questionam quem tem autoridade para defini-lo. Controle Estes livros exploram os mecanismos de controle, tanto visíveis como invisíveis, incluindo a vigilância, a propaganda, a influência tecnológica e o condicionamento ideológico. Revelam como o poder opera não só através da proibição, mas também através de formas sutis de influência e normalização. Voz Esta categoria dá destaque a vozes que persistem, mesmo quando postas de lado. São vozes que, ao longo da história, foram marginalizadas, excluídas ou sub-representadas. Através da literatura, estas obras reivindicam espaço, visibilidade e autoridade narrativa, abordando questões de raça, gênero, identidade, geografia e pertencimento. Memória Esta categoria reúne obras que preservam a memória face ao apagamento, particularmente em contextos de guerra, ditadura, exílio ou trauma coletivo. Estes livros funcionam como atos de resistência, salvaguardando histórias que, de outra forma, poderiam se perder ou serem reescritas. Manifesto Library, em Portugal Divulgação LEIA TAMBÉM: Paisagens paradisíacas, becos e vielas: saiba onde achar a Bahia de Jorge Amado, Itamar Vieira Junior, Luciany Aparecida e João Ubaldo Na Bienal do Livro Bahia, Aline Bei discute sobre escrita que mistura poesia e romance com mulheres no centro da narrativa Escritores falam sobre a importância da representatividade LGBTQIA+ na literatura jovem; assista vídeo Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/08/15/livro-selecionado-para-inaugurar-biblioteca-de-dua-lipa-foi-censurado-em-escola-de-salvador.ghtml


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