'Informações falsas': presidente da Anac diz que agência foi enganada pela Voepass

  • 26/07/2026
(Foto: Reprodução)
Anac diz ter sido enganada pela Voepass O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em agosto de 2024, aponta que uma falha estratégica nas tomadas de decisão da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuiu para o acidente. Segundo o documento, a atuação da agência permitiu que a Voepass continuasse operando mesmo diante de violações identificadas durante fiscalizações. A conclusão coloca a Anac entre os fatores contribuintes para a tragédia, ao lado de falhas da companhia aérea e de erros de pilotagem. Entre 2022 e 2024, fiscais da Anac notificaram a Voepass dez vezes por irregularidades no sistema de degelo das aeronaves. De acordo com o relatório, a empresa informava que os reparos haviam sido realizados e mantinha as aeronaves em operação. O sistema de degelo é apontado pela investigação como um dos elementos centrais para a queda do avião. Em entrevista ao Fantástico, o diretor-presidente da Anac, Tiago Faierstein, afirmou que o relatório do Cenipa aponta as ações da agência como fator contribuinte, mas fez uma distinção entre isso e uma responsabilização direta pela queda. “O Cenipa aponta as ações da Anac como fator contribuinte. Não necessariamente diz que a Anac foi responsável pela queda do avião.” Faierstein disse que a agência recebeu as conclusões da investigação com atenção e que pretende adotar as recomendações apresentadas no relatório. “A aviação é um sistema muito complexo. Mas nós estamos olhando com muita humildade as recomendações do Cenipa para nós e vamos adotá-las.” Questionado sobre por que a Voepass continuou voando mesmo após a identificação de irregularidades, o presidente da Anac afirmou que a empresa fornecia informações falsas aos fiscais. Segundo ele, em uma operação assistida, um fiscal da agência podia exigir a substituição de uma peça e, posteriormente, encontrar um documento informando que a troca havia sido realizada — embora, na prática, o reparo não tivesse sido feito. “Muitas das informações que a empresa nos enviava eram informações falsas. Eu vou citar um exemplo: na operação assistida, um fiscal da Anac chamava o mecânico da Voepass e falava assim: ‘Ó, você tem que trocar essa peça aqui’. Quando o fiscal ia lá ver, via que tinha o documento da troca, que ele tinha reportado a troca, mas que na prática não tinha trocado nada.” Ao ser perguntado se, em resumo, a Anac havia sido enganada pela Voepass, Faierstein respondeu: “Eu posso dizer que sim. Muito sim. O nosso time técnico, o nosso corpo técnico, fez análises baseadas em documentos que não eram documentos verdadeiros.” O presidente da Anac também afirmou que, antes do acidente, a equipe técnica da agência já havia identificado uma degradação na operação da companhia aérea. “Nesses anos anteriores ao acidente, o nosso time técnico detectou uma degradação. Foram vários problemas de manutenção, reportes mentirosos, que a companhia dizia que trocava um determinado equipamento ou não trocava. Ou fazia de uma maneira errada.” Diretor-presidente da Anac, Tiago Faierstein, em entrevista ao Fantástico Reprodução/TV Globo Segundo o relatório, em 2023, a Voepass concentrou 82% das falhas apontadas pela Anac entre as empresas aéreas do país, apesar de responder por apenas 0,6% dos voos realizados no Brasil. A agência proibiu definitivamente a companhia de operar apenas em junho de 2025, dez meses após o acidente. Faierstein afirmou que, após o caso, a Anac decidiu mudar o processo de decisão sobre a suspensão de empresas aéreas. Segundo ele, a definição sobre manter ou não uma companhia em operação deixará de ser apenas da área técnica e passará a envolver a diretoria da agência. “É uma decisão muito subjetiva. Então nós estamos trazendo isso para a diretoria tomar a decisão.” Questionado se isso significaria reconhecer que a Anac não é apenas um órgão técnico, Faierstein respondeu: “Não digo político. Mas é um órgão que tem que ter uma visão matricial, uma visão de cima.” Ao ser confrontado sobre que argumento poderia ser mais importante do que aviões operando em condições precárias e com risco de causar mortes, o presidente da agência reiterou que as fiscalizações haviam identificado não conformidades, mas afirmou que o problema estava nas informações repassadas pela empresa. “As fiscalizações foram feitas, foram detectadas não conformidades. Mas o que acontecia era que a empresa reportava à Anac que tinha feito a manutenção. E, na verdade, não tinha.” Presidente da Anac diz que agência foi enganada pela Voepass Reprodução/TV Globo O que revelou o relatório do Cenipa O relatório final do Cenipa concluiu que uma combinação de falhas da Voepass, erros da tripulação e deficiências na fiscalização da Anac contribuiu para a queda do avião em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. O documento, com 258 páginas, aponta que a companhia mantinha uma cultura organizacional que permitia o adiamento de reparos e a continuidade de problemas considerados graves. O sistema de degelo aparece como um dos principais pontos da investigação. Segundo o Cenipa, o ATR 72 que caiu decolou com o equipamento inoperante e enfrentou sucessivos alertas de formação de gelo durante o voo. A investigação concluiu que, diante do acúmulo de gelo nas asas, a tripulação manteve a aeronave em uma altitude onde havia condições favoráveis para a formação de gelo, em vez de buscar um nível mais seguro. Com a perda de sustentação, o avião entrou em estol e, depois, em um parafuso chato — uma situação considerada rara na aviação comercial. A aeronave perdeu cerca de 14 mil pés de altitude em aproximadamente um minuto antes de atingir o solo. Em nota, a Voepass afirmou que sempre adotou procedimentos rigorosos de segurança, treinamento e manutenção, e disse que seus pilotos eram experientes e certificados. A Anac suspendeu definitivamente as operações da companhia em junho de 2025. Com a conclusão do relatório do Cenipa, as investigações criminais sobre o acidente continuam. Fantástico mostra detalhes revelados em relatório do Cenipa sobre tragédia da Voepass Reprodução/TV Globo GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.

FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/07/26/presidente-da-anac-diz-que-agencia-foi-enganada-pela-voepass.ghtml


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