Com mais de 400 espécies de aves, Parque Carlos Botelho é refúgio para animais ameaçados na Mata Atlântica; veja fotos

  • 13/09/2026
(Foto: Reprodução)
Cantos, cores e espécies ameaçadas: a riqueza de aves do Parque Carlos Botelho Antes mesmo de aparecer, o canto revela a presença. No silêncio da Mata Atlântica, asas se movimentam, espécies se escondem e outras atravessam a copa, formando uma sinfonia que revela a riqueza do Parque Estadual Carlos Botelho, em São Miguel Arcanjo (SP). Em meio à floresta preservada, já foram registradas 414 espécies de aves, sendo 25 ameaçadas de extinção, de acordo com dados do eBird atualizados até agosto de 2026. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp Entre as espécies ameaçadas, está a jacutinga, classificada como “Criticamente em Perigo”. O parque também reúne 121 espécies endêmicas da Mata Atlântica, que representam 29,2% da avifauna registrada na unidade de conservação. A jacutinga é considerada uma das aves mais procuradas pelos observadores no parque e apontada como indicador de saúde da flores Aelson Apolinário Ao g1, Nathália Zandomenegui, gestora do Parque Estadual Carlos Botelho pela Fundação Florestal, explica que a área é estratégica para a sobrevivência das aves porque protege um grande bloco contínuo de floresta bem preservada. "Além disso, está inserido no contínuo florestal do Paranapiacaba, contribuindo para a manutenção da conectividade entre diferentes áreas protegidas e para a conservação da biodiversidade em escala regional", detalha. Diversidade O número atual de espécies registradas no parque representa um aumento em relação ao levantamento feito para o Plano de Manejo, que contabilizava 342 espécies em 2008. De acordo com Nathália, o crescimento não significa necessariamente que novas espécies tenham passado a viver no parque, mas que o avanço pode estar relacionado ao aumento do conhecimento sobre a avifauna da unidade. LEIA TAMBÉM: Maior felino das Américas: monitoramento aponta queda na população de onças-pintadas no Contínuo de Paranapiacaba Três animais ameaçados de extinção morrem atropelados em rodovias do interior de SP em dois dias: 'Perda absurda', diz biólogo Cânions Paulistas: como paisagens de milhões de anos formaram um dos maiores patrimônios naturais do sudoeste de SP "A lista também está consolidada a partir de sete hotspots do parque, mostrando que o conhecimento sobre a avifauna continua sendo ampliado." Capitão de Sairá, espécie encontrada no Parque Estadual Carlos Botelho Aelson Apolinário Entre as aves mais emblemáticas estão a jacutinga, o macuco, a araponga, o pavó, o sabiá-cica, o tucano-de-bico-verde e o gavião-pega-macaco, além de outras espécies de gaviões florestais. O parque possui ainda características ambientais que favorecem a diversidade. A área reúne florestas contínuas e preservadas, diferentes altitudes, rios e riachos, árvores de grande porte e grande variedade de plantas, frutos, sementes e insetos. “Essa variedade de condições cria diferentes nichos ecológicos e permite a ocorrência de uma grande diversidade de espécies de aves”, explica Nathália. O surucuá-dourado é uma espécie de surucuá que habita as Honduras e a região da Amazônia. Chegam a medir até 26 cm de comprimento Aelson Apolinário O relevo também influencia a composição da avifauna. As regiões de maior altitude apresentam características diferentes das áreas mais baixas, com mudanças na vegetação e, consequentemente, nas espécies encontradas. "O Carlos Botelho abriga uma expressiva quantidade de espécies endêmicas da Mata Atlântica. São 121 espécies endêmicas do bioma, correspondendo a 29,2% da avifauna registrada. Essa característica reforça a importância do parque para a conservação de aves associadas às florestas da Mata Atlântica", destaca Nathalia. 🦜 De olho e de ouvido Para quem participa de atividades de observação de aves no Carlos Botelho, o encontro com os animais nem sempre acontece diante dos olhos. Isso porque, na prática, ouvir uma ave também conta como registro. É o que explica o guia ambiental Aelson Apolinário, que acompanha visitantes em atividades de observação de fauna no parque. A observação de aves vai além do ver a ave, o ouvir a ave já conta. Todo observador de aves costuma ir com uma lista de espécies que ele quer observar naquele dia e ir registrando em aplicativos que têm essa finalidade. Então, só a vocalização já contabiliza. Tem uma espéice que chama corocochó, que é fácil de ouvir, muito característico, mas a gente não consegue avistar ele, mas sabe que ele tá lá por causa do canto", explica. Segundo Aelson, em uma trilha de quatro a cinco horas voltada ao público geral, é possível identificar entre 40 e 60 espécies de aves. Os registros podem ser feitos por meio de aplicativos especializados, como o Merlin, usado por observadores para identificar espécies e consultar quais aves já foram registradas em determinada região. Até mesmo registros exclusivamente sonoros podem ser considerados. Segundo o monitor, há, por exemplo, um registro de vocalização de harpia no parque feito por um observador, embora a ave nunca tenha sido avistada na unidade. Encontrado em regiões de Mata Atlântica, o araçari-banana se alimenta de frutos do palmito-juçara. Costuma viver em grupos Fundação Florestal 🔎 Observação de aves O perfil dos visitantes também muda conforme o objetivo da atividade. Aelson explica que o parque recebe tanto turistas que querem apenas ter contato com a natureza quanto pessoas que chegam especificamente para observar aves. O observador costuma vir equipado com câmera fotográfica e outros equipamentos e, muitas vezes, já chega ao parque com uma lista das espécies que pretende encontrar. “Ele vem com essa demanda já mais organizada”, conta. Para esse público, a atividade pode durar várias horas e até avançar para o período noturno, quando são realizadas observações de corujas. Isso porque a busca por determinadas espécies depende dos horários em que elas estão mais ativas. Já para o visitante que não tem experiência com observação de aves, a atividade funciona mais como uma experiência de ecoturismo. Além de apresentar os animais, o monitor explica características das espécies e a importância delas para o ambiente. “Além de ele ter o contato com a ave, o guia está sempre traduzindo uma série de informações ali: sobre a vida daquela ave, qual a importância dela no ecossistema, por que ela tem pouco, por que ela tem bastante”, aponta o monitor. Segundo Aelson, esse tipo de turismo tem crescido nos últimos anos, impulsionado também pela procura por atividades em contato com a natureza, viagens de curta distância e experiências que aproximem o visitante do local conhecido. "São tendências globais. Uma dessas tendências é a vida na natureza, essa interação com a natureza. As viagens de curta distância, em vez de eu pegar um avião e ir lá para não sei onde, eu estou consumindo mais a região. E a questão do turismo de experiência, que não é aquela coisa de vir, andar no mato ou ir até uma cachoeira, tomar banho em cachoeira, daqui 30 dias você não lembra nem o nome da cachoeira. É conhecer o que você está visitando", analisa o guia. Parque Estadual Carlos Botelho abriga 414 espécies de aves e 25 ameaçadas de extinção Fundação Florestal Para quem se dedica à atividade, a observação também pode ser um motivo para retornar ao parque. Isso porque nem sempre todas as espécies procuradas são encontradas em uma única visita. "Eu falo que é quase que uma catequese aqui que a gente faz, aí não só com as aves, com tudo. Então o cliente vem com 200 espécies na lista, e vai ter a espécie que ele vai voltar num outro período para poder ver, porque não era período dela", diz Aelson. 🐦‍⬛ Espécies ameaçadas Maria-leque-do-sudeste Aelson Apolinário Entre as 25 espécies ameaçadas registradas no parque, 12 são classificadas como Vulneráveis. É o caso do macuco, tauató-pintado, gavião-pombo-grande, saracura-três-potes, araçari-banana, araçari-poca, papo-branco, maria-leque-do-sudeste, chibante, sabiá-pimenta, patinho-de-asa-castanha e não-pode-parar. Outras cinco estão na categoria Em Perigo: jaó-do-sul, pica-pau-de-cara-canela, barbudinho, pixoxó e cigarrinha-do-sul. Já a jacutinga está na categoria mais grave, Criticamente em Perigo. A jacutinga também exerce uma função importante na floresta. A ave atua na dispersão de sementes e contribui para a regeneração da Mata Atlântica, inclusive de espécies como a palmeira-juçara. “Ao se alimentar dos frutos e transportar as sementes, ela contribui para a regeneração e a dinâmica da floresta. A espécie é considerada Criticamente em Perigo e sofreu importantes reduções populacionais históricas, principalmente em razão da caça e da perda e degradação de habitat", aponta a gestora. A principal diferença entre o jacu e a jacutinga está na aparência física e na coloração de suas penas e pele do pescoço Fundação Florestal De coloração preta, parecida com um jacu, só que ela é mais refinada, a jacutinga é uma das aves consideradas mais interessantes para observação, embora nem sempre consiga ser avistada. "Apesar de estar presente no parque, seu encontro é considerado especial e depende de sorte. Em uma única manhã, por exemplo, é possível ouvir uma araponga, observar um tangará e uma saíra-sete-cores e, com sorte, encontrar uma jacutinga", diz Nathalia. 🌲Indicador da saúde da floresta Para a Fundação Florestal, a diversidade de aves também ajuda a mostrar a qualidade ambiental do parque. A unidade consegue abrigar desde espécies mais generalistas até aves especializadas, que dependem de florestas maduras. A presença de animais raros e ameaçados indica que ainda existem ambientes capazes de sustentar uma comunidade diversificada de aves. Entre as espécies que podem ser consideradas sinais positivos de conservação estão a própria jacutinga, o macuco e grandes gaviões florestais. “São aves que dependem, em diferentes graus, de áreas extensas de floresta, estrutura vegetal complexa e disponibilidade adequada de recursos”, afirma Nathália. Patinho-de-asa-castanha é uma ave inconfundível devido ao seu bico ser completamente achatado, de onde nasceu o nome comum de patinho Fundação Florestal 🚨Ameaças Apesar do bom estado de conservação, as aves do parque ainda estão sujeitas a ameaças, como a caça, a retirada ilegal do palmito-juçara, a degradação das bordas da floresta e a perda de conectividade no entorno da unidade. A retirada do palmito-juçara preocupa também porque a planta produz frutos consumidos por diversas espécies de aves. Dessa forma, a exploração ilegal pode afetar tanto a vegetação quanto a disponibilidade de alimento para os animais. Aelson destaca que a história da ocupação e da exploração da Mata Atlântica também ajuda a explicar por que algumas espécies chegaram a situações críticas de conservação. Segundo ele, a redução das florestas e a caça tiveram impactos importantes sobre animais como a jacutinga. "São ações de ciclos econômicos, ações históricas. Por exemplo, no final do século XIX, nós tínhamos aqui no estado de São Paulo essa questão de abrir floresta, abrir cidade, abrir cultura de gado, enfim. E isso causou uma supressão muito grande de floresta. Aqui, a nossa região, é o maior e último contínuo de floresta de Mata Atlântica, mas não por bondade humana, porque a geografia ficou ruim. Não tinha mais para onde avançar", explica o monitor ambiental. Gaturamo-verdadeiro, espécie encontrada no Parque Estadual Carlos Botelho, em São Miguel Arcanjo (SP) Aelson Apolinário As mudanças climáticas também podem alterar a distribuição e o comportamento das espécies. Variações na temperatura e no regime de chuvas podem modificar períodos de reprodução e a oferta de frutos e insetos, conforme explica Nathalia. "Espécies mais especializadas e associadas a ambientes montanos podem ser particularmente vulneráveis, porque possuem menor disponibilidade de áreas adequadas para acompanhar essas mudanças", aponta. 🦤Horário certo Para aumentar as chances de encontrar as aves, também é preciso considerar o comportamento dos animais. Segundo Aelson, os períodos de maior atividade costumam ser no início da manhã, até aproximadamente 9h, e no fim da tarde, entre 16h e 18h. Os horários podem variar conforme a estação do ano. "Dependendo da estação do ano, isso varia um pouco. A vida das aves, essa vida ativa de movimentação e de vocalização, é muito maior nesses períodos que eu falei. Nos outros horários, elas estão se alimentando, andando. É tipo, elas avisam 'eu acordei e agora estou indo dormir também'", comenta. O surucuá-variado ou surucuá-de-peito-azul é uma espécie de ave da família Trogonidae Aelson Apolinário 👂Ouvir é mais fácil do que ver O macuco é outro exemplo de ave que pode ser mais facilmente identificada pelo som do que pela visão. A vocalização pode ser ouvida a uma distância considerável dentro da floresta, mas encontrar o animal é mais difícil porque ele permanece no sub-bosque e tem comportamento discreto. "Tovacas e algumas espécies de macuquinhos também apresentam esse padrão, sendo frequentemente detectadas primeiro pela vocalização", comenta Nathalia. Nathália explica que não é possível apontar uma única espécie como definitivamente a mais difícil de observar. O comportamento, o ambiente e as condições do momento influenciam diretamente. “Em uma única manhã, por exemplo, é possível ouvir uma araponga, observar um tangará e uma saíra-sete-cores e, com sorte, encontrar uma jacutinga”, conta. Sanhaço-rei Aelson Apolinário Outra ave bastante procurada é a maria-leque-do-sudeste, que possui um característico leque violeta na cabeça. A espécie apresenta comportamento associado às diferentes altitudes da Mata Atlântica e pode ser encontrada em regiões de menor altitude em determinadas épocas e em áreas mais elevadas em outros períodos. As saíras e os sanhaços também costumam atrair a atenção de quem gosta de fotografar aves por causa das cores. 🥰 Turismo e observação de aves O turismo ecológico também exige cuidados para evitar impactos na fauna e na flora do parque. Na observação de aves, por exemplo, os visitantes precisam seguir algumas regras para não interferir no comportamento dos animais. "Especialmente quando há perturbação excessiva das aves ou de seus locais de reprodução e alimentação. Ruído, aproximação excessiva, saída das trilhas e o uso inadequado de playback podem interferir no comportamento dos animais." Aelson explica que o playback pode ajudar na observação, mas não deve ser usado indiscriminadamente. Durante períodos de reprodução, por exemplo, a técnica pode estressar os animais e interferir no comportamento deles. “Eu não posso usar para todos os passarinhos e nem todas as ocasiões. Por exemplo, o passarinho está acasalando, eu não posso usar o playback. Eu vou estressar ele”, afirma. Para Nathália, a conservação das aves está diretamente ligada à preservação da própria floresta. "A manutenção de grandes áreas contínuas de Mata Atlântica permite que espécies com diferentes necessidades ambientais encontrem alimento, abrigo e condições para reprodução, mantendo também processos ecológicos essenciais para o funcionamento do ecossistema", finaliza a gestora. Beija-flor-de-fronte-violeta, espécie encontrada no Parque Estadual Carlos Botelho Aelson Apolinário Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/2026/09/13/com-mais-de-400-especies-de-aves-parque-carlos-botelho-e-refugio-para-animais-ameacados-na-mata-atlantica-veja-fotos.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Peça Sua Música

Anunciantes